segunda-feira, 9 de março de 2015

Terapia Infantil e bolo de gelatina

Para a segunda postagem, entrevistei as Psicólogas Andrea Sternadt e Patrícia Guillon Ribeiro, ambas referência na Terapia Infantil em Curitiba.



Cris: Por que atender crianças? Quando a Terapia Infantil é indicada?

Resposta: Atender crianças serve para prevenir sintomas e dificuldades futuras e para diminuir ou sanar as dificuldades que as crianças têm ao crescer, pois mesmo o crescimento normal, nem sempre é fácil.

Indicações: quando existe desconforto da criança, havendo ou não algum sintoma mais claro, bem como quando o desconforto é da família ou da escola ou quando existem todas essas situações simultaneamente. Ou seja, basicamente, quando a criança está com dificuldade de relacionamento com o mundo.

Exemplo: dificuldade de habilidades sociais (como saber dizer não quando necessário, aprender a cooperar, saber fazer amizades) para que possa ficar menos triste ou ansiosa. Quando são melhoradas as habilidades sociais, muitas vezes os sintomas tendem a ceder. Para diversos transtornos a Terapia Infantil é indicada, como ansiedade, depressão, déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)...

Cris: Quando escolher Análise do Comportamento? O que ela faz de diferente das outras terapias?

Resposta: A análise do comportamento vai focar no “aqui e no agora”, ou seja, no que está acontecendo, quando está acontecendo e para que aquele sintoma está presente na vida da criança. A gente olha o histórico, avalia a história pregressa, do desenvolvimento, mas focalizamos na mudança atual, no que for preciso mudar para que a criança tenha mais bem estar, e a família e a escola também. Dá para dizer que é uma terapia bem prática, pois vai direto ao ponto.

A grande diferença é a própria “praticidade”, olhar o que está acontecendo e já buscar uma saída, diminuindo com isso o sofrimento de todos.

Cris: Conte-nos sobre o trabalho estudado e desenvolvido por vocês na Terapia Infantil.

Resposta: A nossa experiência se dá através de mais de 20 anos de experiência prática para cada uma. Eu (Andrea) fui professora universitária e a Patrícia continua na academia, como professora do curso de Psicologia da PUC-PR, desenvolvendo pesquisas nessa área.

Tanto na minha experiência (Andrea) quanto na da Patrícia, nunca foi possível dissociar a teoria da prática. Sempre o conhecimento técnico direcionou a prática. A gente entende que a criança é resultado do que ela vive. Ela tem as características próprias, mas sempre na inter-relação com o meio ambiente (escola, família, sociedade). Nunca se pode analisar a criança dissociada de todas essas áreas.

Cris: A culpa dos sintomas é dos pais?

Resposta: Essa é uma questão que os pais sempre trazem, pois a sociedade coloca muita responsabilidade (talvez até excessiva) sobre os pais, como se as crianças fossem uma “tabula rasa”, uma folha em branco, onde tudo o que os pais fizessem fosse imprimido nessa folha.
Entendemos que desded pequenininhos, há uma corresponsabilidade, proporcional a cada idade, então, uma criançaa com 2-3 anos, quando age inadequadamente, mesmo que não compreenda totalmente o que está fazendo, ela já é responsável, em parte, pelo que está fazendo. Por isso é que atendemos as crianças, e conjuntamente fazemos orientação aos pais. Cada um assume a sua responsabilidade e é buscado uma saída com cada um.

 Cris: Agradeço bastante, Patrícia e Andrea, por esclarecer um pouco sobre um tópico que é tão importante, que deixa tantos pais angustiados. Acredito que a falta de informações gere preconceito, afastando crianças do tratamento, crianças que poderiam ter uma qualidade de vida melhora através dele. Queria parabenizar também pela escolha da receita do bolo de gelatina, que ficou, além de delicioso, com um visual muito atraente para adultos e crianças.




Saiba mais sobre Terapia Infantil, ansiedade infantil e sobre o curso ministrado na área pelas entrevistadas.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Depressão e salada de iogurte e cranberries


Como primeiro convidado, escolhi o psiquiatra Gustavo Pradi Adam, cujo trabalho a respeito de depressão já atraiu interesse da Organização Panamericana de Saúde, com quem já publicou um capítulo de livro a esse respeito.



Cris: Dr. Gustavo, sabemos que a depressão já foi chamada de “mal do século”, sobre ela muito já foi falado, escrito e publicado, mas parece que ainda falta esclarecer o público leigo a respeito, pois muitas vezes a consideram sinal de falta de fé, falta de força, de caráter, falta de “um tanque cheio de roupa para lavar”. Conte-nos sobre o seu trabalho e em que ele ajuda a mudar essa mentalidade?

Dr. Gustavo: O trabalho de que participei focava em uma mudança de paradigma no atendimento a condições crônicas de saúde em Unidades de Saúde, considerando que, para o sucesso no manejo de depressão e outras condições crônicas, ao contrário do que acontece no modelo tracidional de atendimento a gripes, dores de garganta e outras condições agudas, é necessário se investir muito mais no apoio à capacidade de autocuidado da pessoa com o transtorno, bem como na sua corresponsabilização nesse processo. O paciente precisa saber muito mais sobre depressão do que sobre gripe para se conseguir algum sucesso no tratamento. Nisso entra a psicoeducação, ou seja, o esclarecimento para a pessoa afetada e para as pessoas ao seu redor sobre a depressão, suas causas, tratamentos e prognóstico, ou seja, aí se faz necessário o esclarecimento de que a depressão não é falta de fé ou de caráter, mas, sim, um transtorno multifatorial, complexo, com custos pessoais (a depressão pode causar impacto à autoconfiança, ao potencial de crescimento da pessoa, à sua socialização, pode trazer risco à sua vida e prejuízo na maioria dos domínios de qualidade de vida, bem como aumentar a chance para outras doenças) e para a sociedade (impacto nas famílias, no trabalho, na previdência, dentre outros).

Cris: Sabemos que dentre os sintomas da depressão encontram-se tristeza, desânimo, alterações do sono e do apetite, diminuição na capacidade de sentir prazer em suas atividades, diminuição do apetite, dentre outros, mas quando alguém com esses sinais deve se preocupar de que possa ter depressão?

Dr. Gustavo: Muitas vezes, os sintomas na medicina são exacerbação de fenômenos naturais. Por exemplo, todos sentimos tristeza, mas a tristeza da depressão é prolongada (ao menos duas semanas) e maior do que a esperada pelo que a causou (ou até aparece sem motivo aparente), trazendo prejuízo para o funcionamento da pessoa. Caso contrário, provavelmente não se trata de um sintoma propriamente dito. Eu diria que os principais sintomas com que a pessoa deva se preocupar são a tristeza, a falta de vontade ou a falta de prazer em fazer as atividades que antes fazia com prazer e o c ansaço fácil. É necessário ao menos duas semanas de duração do quadro (a não ser que muito intenso, quando o diagnóstico mais precoce pode ser necessário, especialmente se aparecerem pensamentos de suicídio) e isso deve estar afetando o funcionamento quotidiano desse paciente. Nesse caso, deve procurar ajuda para se fazer o diagnóstico, o diagnóstico diferencial e pensar em tratamentos.

Cris: Muita gente deve ficar confusa na hora de procurar ajuda, pensando se devem ir a um psiquiatra ou a um psicólogo. O que você tem a dizer para elas?

Dr. Gustavo: Procure alguém! Procure qualquer um dos dois, ou mesmo, um bom clínico. Todos esses profissionais tem condições de ajudá-lo e de avaliar quando o trabalho do outro vai ser necessário para complementar o seu. Especialmente para casos mais graves ou menos responsivos vai ser necessário o trabalho associado do psiquiatra com o psicólogo.

Cris: Durante essa conversa, trabalhamos na elaboração de uma salada com molho de iogurte. Dr. Gustavo, nos conte, por que escolheu essa receita para conversarmos sobre depressão?

Dr. Gustavo:  Assim como a depressão é multifatorial, o seu tratamento é complexo. É necessário, na maioria dos casos, combinar a medicação e/ou a psicoterapia com atividade física do tipo aeróbico, com o trabalho na valorização de momentos sociais e de lazer, com o retorno ao ambiente escolar, acadêmico ou de trabalho e com uma alimentação saudável e balanceada. Acredito que as saladas acabam sendo deixadas de lado por muita gente, por serem pouco práticas ou por não apetecerem a muitos. Nesta receita, a salada se torna um prato atraente e gostoso e, de quebra, é complementada por iogurte, com sua proteína e cálcio e pelas nozes e cranberries, que contêm alguns nutrientes difíceis de se encontrar na alimentação do dia a dia.

Cris: Obrigado, Dr. Gustavo, pelas informações e por seu trabalho tão importante, acredito que muita gente vai conseguir esclarecer suas dúvidas a respeito de um transtorno tão grave quanto a depressão e obrigado pela salada, um prato sempre muito saudável e, nessa receita, a combinação dos ingredientes ficou perfeita. Para o meu leitor que curtiu a ideia, segue a receita.

Saiba mais sobre o trabalho do Dr. Gustavo Pradi Adam e sobre a depressão.